Arquivo da tag: Ministério da Educação

ENAMED 2026. “Peso ou leveza? Na formação médica, sem o fardo da responsabilidade, tudo se torna insignificante.”

“A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, é um romance  profundo que explora a dualidade entre leveza e peso na existência humana, ambientado na Tchecoslováquia durante a invasão soviética de 1968.

A metáfora central do livro contrapõe a leveza e o peso: a leveza pode ser libertadora, mas também insignificante; o peso pode ser opressor, mas confere sentido à vida. Essa dualidade permeia todas as decisões dos personagens, mostrando que não há respostas definitivas…

Pois bem…

Analogia Kundera & ENAMED

  • Milan Kundera abre sua obra com uma provocação: viver é leveza ou peso?
  • O eterno retorno de Nietzsche sugere que tudo se repete infinitamente.
  • Se a vida fosse repetida, cada erro teria peso insuportável.
  • Mas se ela acontece apenas uma vez, cada falha se dissolve na leveza.
  • O estudante diante do ENAMED sente exatamente esse dilema.
  • O peso da prova parece esmagador, como se definisse toda a trajetória.
  • Cada questão errada é vivida como uma marca eterna.
  • Cada nota baixa é sentida como sentença definitiva.
  • Mas Kundera nos lembra: talvez seja apenas leveza.
  • Talvez o fracasso não seja repetido, mas vivido uma única vez.
  • O erro não precisa ser prisão, pode ser aprendizado.
  • O peso é a responsabilidade, a cobrança, o medo de não ser suficiente.
  • A leveza é a liberdade de recomeçar, de tentar de novo.
  • Alunos que foram considerados incompetentes carregam o peso da avaliação.
  • Mas também podem escolher a leveza da experiência única.
  • O ENAMED não é eterno retorno, é apenas um momento.
  • O peso pode esmagar, mas a leveza pode libertar.
  • O fracasso não define, apenas revela caminhos.
  • Kundera nos ensina: viver é oscilar entre peso e leveza.
  • E o estudante precisa aprender que até o “incompetente” pode ser leve.

No Enamed 2026 foram avaliados 351 cursos de Medicina no Brasil (conceitos de 1 a 5).

Destes, 163 cursos obtiveram excelência acadêmica, com conceitos de 4 ou 5, enquanto 107 cursos ficaram abaixo do padrão esperado e poderão enfrentar sanções futuras pelo Ministério da Educação: impossibilidade de novos vestibulares e ou redução de vagas.

No link  todas as faculdades avaliadas e as notas Veja lista e notas dos 351 cursos de Medicina avaliados no Enamed | G1 

A persistência de tantos cursos de Medicina em conceitos 1 e 2 no ENAMED não pode ser atribuída apenas aos alunos considerados incompetentes.

O resultado reflete também a própria estrutura das faculdades, suas metodologias, investimentos e compromisso com a formação médica.

Quando o fracasso se repete, não é apenas o estudante que falha — é a instituição que insiste em oferecer uma formação insuficiente.

O peso da avaliação, portanto, recai sobre ambos: alunos e faculdades. Mas é nas instituições que se encontra a responsabilidade maior, pois delas depende a qualidade da educação e, em última instância, a segurança da sociedade que receberá esses futuros médicos.

Citando trechos da obra de Kundera para o momento real que ocorre na formação médica no Brasil:

“Quanto mais pesado o fardo, mais perto nossas vidas chegam da terra, mais reais e verdadeiras elas se tornam. Inversamente, a absoluta ausência de fardo faz com que o homem seja mais leve que o ar, elevando-se às alturas, despedindo-se da terra e de seu ser terreno, e tornando-se apenas meio real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes. O que então escolheremos? Peso ou leveza? … Quando queremos dar expressão a uma situação dramática em nossas vidas, tendemos a usar metáforas de peso. Dizemos que algo se tornou um grande fardo para nós. Ou suportamos o fardo ou falhamos e sucumbimos a ele, lutamos contra ele, vencemos ou perdemos. E Sabina – o que aconteceu com ela? Nada. Ela havia deixado um homem porque sentiu vontade de deixá-lo. Ele a havia perseguido? Ele tentou se vingar dela? Não. Seu drama não era um drama de peso, mas de leveza. O que lhe coube não foi o fardo, mas a insuportável leveza do ser “

“Quanto mais pesado o fardo, mais reais e verdadeiras nossas vidas se tornam…” — Kundera.

No ENAMED, o peso é a responsabilidade das faculdades em formar médicos competentes. Cada conceito 1 ou 2 não é apenas reflexo de alunos incompetentes, mas também da insustentável leveza institucional: cursos que se multiplicam sem estrutura, sem compromisso, sem fardo real.

Enquanto os estudantes carregam o peso da reprovação, muitas faculdades vivem na leveza — livres de consequências, oferecendo diplomas sem solidez. Mas agora o MEC impõe sanções: redução de vagas, suspensão de vestibulares, supervisão especial. O fardo finalmente chega às instituições.

Assim como Kundera nos provoca a escolher entre peso e leveza, o ENAMED mostra que a formação médica não pode ser leve demais. Sem peso, ela se torna insignificante. Com peso, ela se torna verdadeira.

Referência: Kundera, M. (2008). A insustentável leveza do ser (T. B. C. da Fonseca, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras.