{"id":5654,"date":"2013-11-08T21:54:06","date_gmt":"2013-11-08T23:54:06","guid":{"rendered":"http:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/?p=5654"},"modified":"2022-01-23T11:36:23","modified_gmt":"2022-01-23T14:36:23","slug":"os-histericos-no-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/os-histericos-no-poder\/","title":{"rendered":"Os hist\u00e9ricos no poder"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/histeria.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-12162\" src=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/histeria-300x295.jpg\" alt=\"histeria\" width=\"286\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/histeria-300x295.jpg 300w, https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/histeria-768x756.jpg 768w, https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/histeria.jpg 893w\" sizes=\"auto, (max-width: 286px) 100vw, 286px\" \/><\/a>Uma das experi\u00eancias mais perturbadoras que tive na vida foi a de perceber, de novo e de novo ao longo dos anos, o quanto \u00e9 imposs\u00edvel falar ao cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 consci\u00eancia profunda de indiv\u00edduos que trocaram sua personalidade genu\u00edna por um estere\u00f3tipo grupal ou ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Diga voc\u00ea o que disser, mostre-lhes mesmo as realidades mais \u00f3bvias e gritantes, nada os toca. S\u00f3 enxergam o que querem. Perderam a flexibilidade da intelig\u00eancia. Trocaram-na por um sistema fixo de emo\u00e7\u00f5es repetitivas, acionadas por um reflexo insano de autodefesa grupal.<\/p>\n<p>No come\u00e7o n\u00e3o \u00e9 bem uma troca. O estere\u00f3tipo \u00e9 adotado como um revestimento, um sinal de identidade, uma senha que facilita a integra\u00e7\u00e3o do sujeito num grupo social e, libertando-o do seu isolamento, faz com que ele se sinta at\u00e9 mais humano.<\/p>\n<p>Depois a progressiva identifica\u00e7\u00e3o com os valores e objetivos do grupo vai substituindo as percep\u00e7\u00f5es diretas e os sentimentos origin\u00e1rios por uma imita\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica das condutas e trejeitos mentais do grupo, at\u00e9 que a individualidade concreta, com todo o seu mist\u00e9rio irredut\u00edvel, desapare\u00e7a sob a m\u00e1scara da identidade coletiva.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o torna-se praticamente inevit\u00e1vel quando a unidade do grupo tem uma forte base emocional, como acontece em todos os movimentos fundados num sentimento de &#8220;exclus\u00e3o&#8221;, &#8220;discrimina\u00e7\u00e3o&#8221; e similares.<\/p>\n<p>N\u00e3o me refiro, \u00e9 claro, aos casos efetivos de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, racial ou religiosa. A simples rea\u00e7\u00e3o a um estado de coisas objetivamente perigoso n\u00e3o implica nenhuma deforma\u00e7\u00e3o da personalidade. Ao contr\u00e1rio: quanto mais exageradas e irrealistas s\u00e3o as queixas grupais, tanto mais facilmente elas fornecem ao militante um &#8220;Ersatz&#8221; de identidade pessoal, precisamente porque n\u00e3o t\u00eam outra subst\u00e2ncia exceto a \u00eanfase mesma do discurso que as veicula.<\/p>\n<p>\u00c0 dessensibiliza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia profunda corresponde, em contrapartida, uma hipersensibiliza\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie, uma suscetibilidade posti\u00e7a, uma predisposi\u00e7\u00e3o a sentir-se ofendido ou amea\u00e7ado por qualquer coisinha que se oponha \u00e0 vontade do grupo.<\/p>\n<p>No curso desse processo, \u00e9 inevit\u00e1vel que o amortecimento da consci\u00eancia individual traga consigo o decr\u00e9scimo da intelig\u00eancia intuitiva. As capacidades intelectuais menores, puramente instrumentais, como o racioc\u00ednio l\u00f3gico verbal ou matem\u00e1tico, podem permanecer intactas, mas o n\u00facleo vivo da intelig\u00eancia, que \u00e9 a capacidade de apreender num relance o sentido da experi\u00eancia direta, sai completamente arruinada, \u00e0s vezes para sempre.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, qualquer tentativa de apelar ao testemunho interior dessas pessoas est\u00e1 condenada ao fracasso. A experi\u00eancia que elas t\u00eam das situa\u00e7\u00f5es vividas tornou-se opaca, encoberta sob densas camadas de interpreta\u00e7\u00f5es artificiais cujo poder de expressar as paix\u00f5es grupais serve como um suced\u00e2neo, hipnoticamente convincente, da percep\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo &#8220;sente&#8221; que est\u00e1 expressando a realidade direta quando seu discurso coincide com as emo\u00e7\u00f5es padronizadas do grupo, com os desejos, temores, preconceitos e \u00f3dios que constituem o ponto de intersec\u00e7\u00e3o, o lugar geom\u00e9trico da unidade grupal.<\/p>\n<p>O mais cruel de tudo \u00e9 que, como esse processo acompanha &#8220;pari passu&#8221; o progresso do indiv\u00edduo no dom\u00ednio da linguagem grupal, s\u00e3o justamente os mais lesados na sua intelig\u00eancia intuitiva que acabam se destacando aos olhos de seus pares e se tornando os l\u00edderes do grupo.<\/p>\n<p>Um grau elevado de imbecilidade moral coincide a\u00ed com a perfeita representatividade que faz do indiv\u00edduo o porta-voz por excel\u00eancia dos interesses do grupo e, na mesma medida, o reveste de uma aura de qualidades morais e intelectuais perfeitamente fict\u00edcias.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o um s\u00f3 l\u00edder esquerdista, petista, gayzista, africanista ou feminista que n\u00e3o corresponda ponto por ponto a essa descri\u00e7\u00e3o, que corresponde por sua vez ao quadro cl\u00e1ssico da histeria.<\/p>\n<p>O hist\u00e9rico n\u00e3o sente o que percebe, mas o que imagina. Quando o orador gayzista aponta a presen\u00e7a de cento e poucos homossexuais entre cinquenta mil v\u00edtimas de homic\u00eddios como prova de que h\u00e1 uma epidemia de viol\u00eancia anti-gay no Brasil, \u00e9 evidente que o seu senso natural das propor\u00e7\u00f5es foi substitu\u00eddo pelo hiperbolismo ret\u00f3rico do discurso grupal que, no teatro da sua mente, vale como rea\u00e7\u00e3o genu\u00edna \u00e0 experi\u00eancia direta.<\/p>\n<p>Quando a esposa americana, armada de instrumentos legais para destruir a vida do marido em cinco minutos, continua se queixando de discrimina\u00e7\u00e3o da mulher, ela evidentemente n\u00e3o sente a sua situa\u00e7\u00e3o real, mas o drama imagin\u00e1rio consagrado pelo discurso feminista.<\/p>\n<p>Quando o presidente mais mimado e blindado da nossa Hist\u00f3ria choraminga que levou mais chicotadas do que Jesus Cristo, ele literalmente n\u00e3o se enxerga: enxerga um personagem de fantasia criado pela propaganda partid\u00e1ria, e acredita que esse personagem \u00e9 ele. Todas essas pessoas s\u00e3o hist\u00e9ricas no sentido mais exato e t\u00e9cnico do termo. E se n\u00e3o sentem nem a realidade da sua situa\u00e7\u00e3o pessoal imediata, como poderiam ser sens\u00edveis ao apelo de uma verdade que n\u00e3o chega a eles por via direta, e sim pelas palavras de algu\u00e9m que temem, que odeiam, e que s\u00f3 conseguem enxergar como um inimigo a ser destru\u00eddo?<\/p>\n<p>A raiz de todo di\u00e1logo \u00e9 a desenvoltura da imagina\u00e7\u00e3o que transita livremente entre perspectivas opostas, como a de um espectador de teatro que sente, como se fossem suas, as emo\u00e7\u00f5es de cada um dos personagens em conflito. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a base do amor ao pr\u00f3ximo e de toda conviv\u00eancia civilizada.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de um grande n\u00famero de hist\u00e9ricos nos altos postos de uma sociedade \u00e9 garantia de deteriora\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es humanas, de prolifera\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel da mentira, da desonestidade e do crime.<\/p>\n<p><strong>AUTOR:<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Olavo de Carvalho \u00e9 ensa\u00edsta, jornalista e professor de Filosofia<\/em><\/strong><\/p>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/SENEGA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5656\" title=\"SENEGA\" src=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/SENEGA.jpg\" alt=\"\" width=\"497\" height=\"308\" srcset=\"https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/SENEGA.jpg 497w, https:\/\/miltonmarchioli.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/SENEGA-300x185.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das experi\u00eancias mais perturbadoras que tive na vida foi a de perceber, de novo e de novo ao longo dos anos, o quanto \u00e9 imposs\u00edvel falar ao cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 consci\u00eancia profunda de indiv\u00edduos que trocaram sua personalidade genu\u00edna por um estere\u00f3tipo grupal ou ideol\u00f3gico. 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